A ditadura do relativismo*
“O que é a verdade?”, essa é a expressão máxima do relativismo na História. A responsabilidade de quem pergunta hoje é mais grave do que a de quem colocava a mesma questão nos começos da era cristã – Pilatos.
Pelo mesmo motivo, porém, as responsabilidades dos cristãos são hoje mais graves que as dos cristãos dos primeiros séculos. Estes anunciavam uma fé e construíam um mundo novo; os cristãos de hoje têm como missão, não apenas renovar a antiga e eterna mensagem do Evangelho, mas também inspirar-se nos frutos históricos dessa mensagem, que ainda sobrevivem na sociedade contemporânea, para fazerem deles a base do necessário renascimento. O Império Romano perseguiu o cristianismo sem o conhecer. A sociedade contemporânea é uma sociedade que renega o cristianismo depois de ter conhecido, tanto os benefícios espirituais e morais, como os benefícios culturais e sociais por ele introduzidos.
Uma breve reflexão histórica
No Império Romano, dominava uma religião cívica, sem dogmas nem moral, à qual o Estado impunha uma adesão puramente exterior. Os cristãos, que professavam uma religião antes de mais interior, do coração e da consciência, mas submetida a uma verdade objectiva, refutavam esta adesão formal. As sentenças que os condenavam não tinham em vista delitos específicos, mas a pura e simples proclamação do cristianismo. Esta profunda coerência entre o pensamento e a acção, esta adesão à verdade de que os cristãos davam mostras, era considerada uma perigosa forma de intransigência e de fanatismo por parte das mesmas autoridades que professavam a equiparação sincretista de todas as religiões. Isto é comparável ao pensamento de Voltaire no seu Tratado sobre a Tolerância, “nenhuma tolerância para os intolerantes”. Voltaire escreve “é inconcebível que, sob o domínio dos imperadores, tenha existido uma inquisição contra os cristãos. Não há notícias de judeus, sírios, egípcios ou bardos terem sido incomodados pelas mesmas razões. Foram mártires aqueles que se ergueram contra os falsos deuses. Vistas bem as coisas, porém, eles insurgiram-se violentamente conta os cultos tradicionais e, por muito absurdos que tais cultos fossem, somos levados a reconhecer que eles (mártires) eram intolerantes”2. Para Voltaire, todas as opiniões e todos os cultos são toleráveis, à excepção da “intolerância”. “Para merecerem a tolerância os homens têm de começar por não ser fanáticos”3. Elevada a dogma ideológico, a tolerância atribui o mesmo valor à verdade e ao erro, como expressões subjectivas da consciência, que tudo dissolve, a cepticismo radical. Quem acredita numa verdade, seja ela qual for, é então rotulado de fanático, integrista, fundamentalista.
Actualidade
Constitui-se relativismo, o deixar-se levar “de um lado para o outro ao sabor dos ventos de doutrina”, tendo como consequência uma ditadura do relativismo, pois não reconhece coisa alguma como definitiva e que propõe como medida última o próprio “eu” e os seus caprichos. Vivemos hoje numa sociedade fundada sobre o anti-Decálogo (contra os Dez Mandamentos), em que tudo é permitido, excepto o professar em público a fidelidade aos princípios divinamente estabelecidos. Passou-se do tradicional anticlericalismo à nova "cristo fobia”. A absolutização do que não é absoluto, mas relativo, chama-se totalitarismo, e não liberta o homem, antes o priva da sua dignidade e o escraviza. Pois o homem é reduzido a um coágulo de interesses e desejos. Os direitos humanos devem estar subordinados ao respeito pelos imperativos da Terra. Trata-se de prestar culto à Terra, de um monismo panteísta que afirma que o homem não é mais do que o produto da evolução material, e que se há-de dissolver um dia.
Expressão prática dessa realidade
A Declaração dos Direitos do Homem, atribui ao homem a possibilidade de fazer tudo quanto quiser, mesmo em prejuízo de si próprio, ignorando ou negando toda e qualquer lei natural ou moral, tendo como único limite o de não levar prejuízo à liberdade dos outros. O coração da nova constituição europeia é a Carta dos Direitos Fundamentais. Ela tem força jurídica e será soberanamente interpretada pelo Tribunal Europeu de Justiça. O tratado de Lisboa visa, não uma constituição política, mas uma constituição jurídica, que é um elemento central da carta dos direitos fundamentais. No preâmbulo da referida carta afirma-se “ciente do seu património espiritual e moral, pretende reforçar a tutela dos direitos fundamentais à luz da evolução da sociedade, do progresso social e dos desenvolvimentos científicos e tecnológicos.” No entanto foi eliminada toda e qualquer referência à religião cristã. Quem tem competências de interpretação e aplicação da Carta Europeia dos Direitos é o Tribunal de Justiça Europeu, ao qual os tratados reconhecem o poder de sancionar os estados nacionais pela violação das respectivas obrigações. O Tribunal de Justiça não pode ser contraditado, mas pode contrariar um voto popular legitimamente expresso. Na Europa, aquilo que hoje se contrapõe à soberania nacional não é um poder político central, mas um poder jurídico supranacional.
A nossa posição
“Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21) – fórmula antiga e sempre nova, continua a ser a resposta do cristão ao relativismo totalitário dos nossos dias. Os cristãos reconhecem a existência de um poder temporal, distinto da autoridade espiritual, e a cujas leis compreendem a necessidade de se submeter. Mas os confins do poder de César são limitados pela segunda parte da recomendação: e dai “a Deus o que é de Deus”, ou seja, pelo reconhecimento da existência de uma autoridade e de uma Lei que tem os seus direitos, próprios e não negociáveis. Com efeito, o culto agradável a Deus nunca é um acto meramente privado, sem consequências nas nossas relações sociais: requer testemunho público da própria fé. Isto vale para todos, mas impõe-se com particular premência a quantos, pela posição social ou politica que ocupam, têm de tomar decisões sobre valores fundamentais, devem sentir-se particularmente interpelados pela sua consciência rectamente formada a apresentar leis inspiradas nos valores impressos na natureza humana.
A realidade do ser humano
O comportamento do homem não está determinado de maneira absoluta pelo instinto, como acontece no animal, antes nasce da capacidade humana de compreender e de querer; é nesta capacidade de juízo de escolha que consiste a liberdade do homem. Esta liberdade resulta da natureza espiritual do homem, daquilo que o emancipa das leis da matéria. O homem não é escravo dos seus instintos, é capaz de os transcender porque tem uma alma espiritual. Se ele fosse um mero produto biológico, as opções do homem estariam irrevogavelmente determinadas. Esta liberdade seria ilusória e irrisória se não fosse dirigida a uma meta, orientada para um fim, Deus em última instância. Graças ao dom da liberdade, o homem é a causa dos seus próprios actos. A liberdade humana pressupõe a existência do livre arbítrio individual, que pressupõe a existência da alma como substância espiritual. No entanto a liberdade do homem não é absoluta porque o homem não é perfeito, o seu conhecimento e a sua vontade são participados, limitados e imperfeitos, só Jesus é a Verdade.
Alexandre Samuel Lopes
Pastor Evangélico - Lisboa
Publicado originalmente na edição escrita da NAJovem de Agosto de 2009.
*Título do livro de Roberto de Matei editado pela Civilização Editora, 2008.
2VOLTAIRE, Tratado sobre a Tolerância, Antigoma, p.48.
3Ibidem, p.101.



